Desfiladeiro de si.
Busto que se dobra pra ver a altitude da queda.
Pernas que se encostam.
Pés que se alinham.
Na iminência em cair,
dobrar se diante do meio
e desequilibrar nas fronteiras da gente.
Desfiladeiro de si.
Busto que se dobra pra ver a altitude da queda.
Pernas que se encostam.
Pés que se alinham.
Na iminência em cair,
dobrar se diante do meio
e desequilibrar nas fronteiras da gente.
Eu não sou sua anestesia.
As mãos se entrelaçam para que a vida não se perca no tempo.O fluxo é interrompido na aceleração do mundoO feminino se cala diante a história.O feminino se cala para que nasça uma nova história.Essa se povoa de heróinas.Nossas mães, nossas avós, nossas tias e vizinhas.Cortam na carne o feminino silenciado.
São outras, são as mesmas.São a possibilidade de outra realidade.São a liberdade no recorte de tempo.São pais em pele de mães.São anciãs.Na inquietude da busca que não cessa.Na interrupção, a revolução.A aridez é o discorrer do processoÉ o verbo inconcluso.É o sacrifício de outra instância.É a possibilidade da integridade de todas.Porque sempre fomos uma.Na abundância e na faltaPorque sempre fomos umaNa dor e na alegriaPorque sempre fomos umaNo renascer profundo do reencontro.No fluxo do feminino restabelecidoNos olhamos em silêncio.Passado e presente.
Promessa de futuro.Reconectando vida em estado de graça.
Porque o não ,
o não é a antecipação tola de um possível talvez,
num medo descabido em não se encarar pertencente
Ouço sua voz
Quando atravesso camadas submersas em mim.
Quando piso em meu eixo entregue a sorte.
Quando sinto o vento das coisas fugidias.
Quando o canto me leva as extremidades do sutil.
Quando paro no compasso para ser o que sou: mulher.
Porque ser mulher não é tarefa simples.
É trabalho cotidiano na relação com o mundo que desagua rios na carência em não tê-la.
É feminino sensível na mediação de tudo que pulsa.
É força no germinar tempo de florescer vida que desdobra vida.
Que ouve coração no exercício de chorar junto.
Aquecer ninho e não deixar sozinho.
No silenciamento de si, o lamento do mundo.
Mundo que não sabe lidar com ela.
Ela que se ajusta as demandas do mundo.
Mas também é festa desejante
Aguas profundas do nós
Vínculo, conexão, alquimia
Brincante do chão da gente.
Pelos palcos da noite e também do dia.
Quando o feminino perde espaço?
Quando negociamos o mais sagrado em nós?
Até que ponto alcançaremos estrelas e pisaremos nosso chão na utopia extraordinária do sentir.
Expansão pra dentro e pra fora.
Fora dos muros do medo.
Equilíbrio na troca com mundo.
Equilíbrio na troca com outro.
Equilíbrio.
Na corda bamba em viver.
Ouvir os fluxos do agora,
ler o silêncio de alguém,
ser tocado pela história que não é sua
mas que no fundo também é.
Somos coletivo brincando de ser individual.
Somos um, brincando de ser dois.
Somos paredes impenetráveis pela
vontade de controlar o que nunca esteve em nossas mãos.