segunda-feira, 20 de março de 2023

Lua Negra


       Há um vigia interno que nos espreita, a qualquer sinal de ultrapassagem somos detidos.O roteiro pré-estabelecido do sacrifício nos eleva e tudo que não tenha a densidade de uma renúncia não merece ser nomeado.A lista de tudo que não merece nome é imensa, em sua não palavra a falta de contorno se expande em sua condição libertaria de subversão,o não nomeado aguarda sua vida a margem.

Mas não seria a margem o lugar sagrado da inclusão?

     Estaria a margem tudo que opta pela rebeldia de sentir. Para além da razão, a sensação de trilhar o inédito, no ilimitado ato de imaginar.Imagino o que não se espera e espero pelo que não tem nome.A felicidade a encara feito um desconhecido, e por não ser catalogado é descartado como pães adormecidos que se esfarelam no dia seguinte.Definitivamente não fomos ensinados a sermos felizes, não, definitivamente não fomos autorizados a sermos felizes. Seguimos na credulidade do controle da vida. O vigia adormece em paz.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Tempo presente



Há quem diga que tempo é dinheiro.
Há quem diga que tempo é remédio.
Hoje prefiro o tempo instante.
Agora santuário de memórias.
Agora na estrada da existência larga do que virá.
Mais precisamente agora do agora mesmo.
Imensidão de pés fincados no espaço de ser.
Sendo outros e o mesmo no jogo do tempo.

Porque o lugar do nós é o palco da linguagem.
No ar rarefeito de bugigangas que ofuscam o que se é.
Somos o vir a ser dos contatos permitidos.
Na coragem de transpor medida além do que se espera.

Mas como dialogar com o tempo e ainda assim caminhar levemente?

Como entender-se parte daquele que nós devora a cada minuto que passa?

Por que somos no meio.
Existimos plenamente na relação.
Somos membrana no fluxo do instante. Somos vida desatando nos de tudo tenha tido nos afetado.
Somos memória no emaranhado do medo de não sentir dor.

Mas a dor é premissa da vida.

Corpo que se estende,
na tarefa de resistir ao tempo.
Tempo de pausar e tempo de seguir.
Tempo de esperar e tempo de sentir.
Tempo de falar e tempo de ouvir.

Música na escala da existência,
harmonia de nossas vozes presas,
na garganta da expressão.
Somos canção,
que ocupa os espaços,
na intenção de tocar o outro.

Outro feito de mundo,
outro feito de nós,
outro feito de tempo.

Escuto a tua voz,
a medida que me entrego a dança da vida,
sempre outra na esteira da eternidade.
Somos verdade,
esperando o tempo de nascer,
mais uma vez.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Yin


 


Ela vem.
Na força de uma risada.
No recitar de uma palavra.
Na hora da largada.
No cansaço de chegada.
Num momento de decisão.

Ela vem.
Na mudança da lua.
Na minha história
e também na sua.
Na hora do choro seco.
Na tristeza e no desespero.
De tudo ter sido em vão.

Eu preciso de mim
Não tem origem
Não tem fim.

Meu tempo é hoje.
Na coragem dos afetos pungentes
Na cara lavada da gente
Na alma que pesa.
Na reza.
No desencontro do tempo
No vento.
Que sopra pra longe
Pela dança dos ciclos sem fim.

Na luta pra que ela seja sempre sua
Mulher que não recua
Quando a vida fala não e sim.
Luta pra que ela seja sempre sua
Mulher que não recua
Na batalha em ser dona de mim.

domingo, 28 de agosto de 2022

Poesia sem alcool


 

Meu bem, não chores,

hoje tem filme de Carlito

Meu bem, não chores

hoje tem poesia do Neruda.

Porque se alonga 
no alcance das estrelas
Se o sol,
nasce todos os dias 
dentro de ti?
 
Na festa do entre,
a alegria em estar.
Na festa do entre,
á medida certa da existência.

Entre rios há mar
Entre o tempo há instante.
Entre silêncios há palavras
Entre nós, infinito.

sábado, 23 de julho de 2022

Corpo Alma-Poesia adulta

 

Era corpo,
corpo que a maior parte do tempo cala, 
corpo que se resguarda dos afetos pungentes,
 que transformam vida,
 corpo que não permite ser corpo. 
Era mente.
Mente que cria desculpas.
 Mente que mente.
Por que se fora corpo
 seria transbordamento de alma pelos poros dos sentidos.
Mas também se comunicava,
 era desfiladeiro de si,
 busto que se dobra pra ver a altitude da queda,
pernas que se encostam,
pés que se alinham na iminência em cair,
dobrar-se diante do meio 
e desequilibrar nas fronteiras da gente.
Era fome de corpos que se mesclam no encontro das águas.
 Era carne que se comunica,
 carne que se conecta ao chão do coração.
Era paixão. 
Era a promessa do encontro,
 era o conto.
Conto de histórias e trocas, 
de comunidades vivas, 
de pés descalços nas areias quentes,
 era nudez da gente.


Mulher Oculta

 


Inserção no mundo.
Mundo fálico, mundo falido.
Objetificação na produção de tudo que há.
Distinção no descarte da imperfeição.

Quantos homens precisei ser para me tornar uma mulher?
Quantos homens precisei deixar se ser para descobrir-me mulher?

Descida da deusa
Heroína do caos
Vida em estado de intuição.
Disrupção, corpo, reconexão.

Nós somos e isso basta

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Feminino



Os mares se revoltam.
Os mares se revoltam a medida que as páginas de nossos diários ascendem no ar.
Elas se encontram no tempo do infinito.
Elas ensaiam a dança da vida.

A mulher se levanta.
A mulher eleva-se as profundezas dos rios de si.
A mulher se ancora meio.
Ponte suspensa pelas vigas da imaginação.
Fogo da criação.
Paixão.

Lua que reflete sombras.
Cicatrizes que se curam pelas águas da gente.
Ela é outra, ela é a mesma.
É o encontro com o tempo.
É o vento.
A história do instante, errante.
Na liberdade em encontrar-se.
Mais uma vez. 

OBS: Desenho idealizado e realizado por Beatriz Luz(minha filha).